Pular para o conteúdo
SAÚDE MENTAL

Uma visão além dos muros: A saúde mental dos professores no Brasil

Atuar no chão da escola exige resiliência e também adoece professores. Para evitar o Burnout e a precarização existe a Lei 14.819 com foco na gestão preventiva da saúde mental docente que ainda não tem a sua aplicação devida.

Breno SouzaBreno SouzaASSISTENTE E MOBILIZADOR EDUCACIONAL
Publicado em 11 de agosto de 2026
15 min de leitura
saúde mental na escola

saúde mental na escola

Quando falamos sobre o desenvolvimento de competências socioemocionais nas escolas, o discurso oficial é ser atraente.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), nos diz que precisamos formar os alunos integralmente, preparando-os para as demandas do século XXI. Mas, na vida real, precisamos fazer as perguntas que incomodam: O mundo do trabalho é de fato esse? Quem é responsabilizado por essa formação?

1. A Ilusão do "Mundo do Trabalho" e a Mercantilização da Escola:

Existe um problema estrutural que precisa ser exposto sem culpabilizar a figura do professor que é quem está na linha de frente. É preciso que os educadores desenvolvam habilidades de autogestão e resiliência para o futuro dos alunos, mas como fazer isso quando a própria juventude não tem mais esperança no mercado de trabalho atual?

Hoje, vemos um cenário tão precarizado que o emprego formal recebeu outros significados. Os pais investem na educação dos filhos sonhando que eles não precisem se passar por inúmeras dificuldades no mercado de trabalho, mas a realidade nos mostra um sistema focado na precarização e degradação.

Em vez de torcermos para que as crianças se afastem do trabalho formal, não deveríamos estar lutando juntos por um regime de trabalho mais justo e que converse com as necessidades atuais dos jovens?

O que a análise crítica nos mostra é que as diretrizes educacionais tentam adaptar os alunos a esse cenário de instabilidade: uma juventude inserida na precariedade das relações de trabalho e sem garantias sociais. Ao focar tanto na adaptação emocional no cenário atual, a educação torna-se um negócio desigual, transferindo para a gestão da escola e para os professores a responsabilidade de prepará-los para uma competição.

2. A Família Sobrecarregada:

O problema esbarra também em outro pilar da educação: a família. A escola fornece as ferramentas, mas a família é o farol. Teoricamente, o desenvolvimento socioemocional deve envolver a família e a comunidade. Mas como cobrar essa base em lares desestruturados e sobrecarregados pelo sistema?

Na prática, um aluno de tempo integral passa mais tempo na escola do que em casa. E quando volta, encontra uma realidade dura: como a família vai fixar habilidades emocionais vivendo sob a exaustiva escala de trabalho 6x1?

Geralmente, a mulher, sobrecarregada com duplas e triplas jornadas e com as tarefas de casa é o único meio de sustentação emocional do lar.

As crianças são ensinadas a ter "autocontrole" e a "gerenciar o estresse" em um sistema econômico em ruínas, marcado por crises climáticas, inflação e especulações. Se elas fracassam, a pedagogia das competências joga a culpa no indivíduo, isentando o sistema falho.

3. Do Diálogo ao Silenciamento:

A Base Nacional Comum Curricular traz como uma de suas competências gerais o exercício da empatia, do diálogo e da resolução de conflitos para promover os direitos humanos. Na teoria é possível imaginar alunos com senso opinativo, debatendo ideias pacificamente. Porém, precisamos encarar a frustração do que há na teoria e do que não é realizado.

Isso nos mostra que focar de forma isolada nessas competências pode ser uma solução sem efetividade.

4. Psicólogos nas escolas:

A atuação de profissionais da psicologia na escola é fundamental para superar a visão tradicional e reducionista que historicamente joga a culpa no aluno ou sua família pelo "fracasso escolar", tirando o foco de práticas meramente clínicas e chuvas de diagnósticos para uma compreensão social, institucional e política do ambiente educacional.

O impacto dessa atuação nos processos da escola é amplo e transformador, pois a psicóloga contribui ativamente na elaboração e avaliação do projeto político-pedagógico da instituição, além de mediar as relações de ensino-aprendizagem em parceria com os professores. Ao trabalhar de forma interdisciplinar com todas as pessoas da comunidade escolar, alunos, professores, gestores, funcionários e familiares.

profissional de psicologia atua na prevenção promoção da saúde e do desenvolvimento humano. Dessa forma, o profissional fortalece a educação inclusiva, questiona preconceitos e facilita a construção de um espaço educacional mais democrático, acolhedor e emancipador

O Planejamento para o adoecimento Docente e a Violência Silenciada:

Chegamos à base de sustentação da escola: o professor. E aqui, a minha visão é muito clara e vai na contramão do que o sistema espera: não tem o que o (a) educador (a) fazer frente a uma estrutura que o (a) abandona.

Não deveria existir a necessidade de um profissional se entregar ao ponto de adoecer fisicamente e mentalmente para tentar consertar as falhas sistêmicas da sociedade. A sala de aula, muitas vezes deixa de ser um laboratório de cidadania para se transformar em um campo minado. Os dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) escancaram que o Brasil é o líder global em violência contra professores.

O discurso das competências socioemocionais é sedutor, mas esconde armadilhas que se não forem analisadas e postas em prática por profissionais capacitados podem trazer sérias consequências. Precisamos tratar a educação com responsabilidade política, coletiva e social, sem transferir a responsabilidade da precarização do trabalho para o professor ou para o estudante de baixa renda diante de inúmeras dificuldades históricas e existentes.

Referências:

BRASIL. Lei nº 14.819, de 16 de janeiro de 2024. Institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares. Brasília, DF: Presidência da República, 2024. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/lei/l14819.htm. Acesso em: 24 jul. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). CID-11: Classificação Internacional de Doenças (Burnout como fenômeno ocupacional). Genebra: OMS, 2019. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/28-5-2019-cid-burnout-e-um-fenomeno-ocupacional. Acesso em: 24 jul. 2026.

SINDICATO DOS PROFESSORES DO ENSINO OFICIAL DO ESTADO DE SÃO PAULO (APEOESP). Adoecimento mental atinge 97% de servidores da Educação e 81% da Saúde. São Paulo: APEOESP, 2026. Disponível em: https://www.apeoesp.org.br/noticias/noticias-2026/adoecimento-mental-atinge-97-de-servidores-da-educacao-e-81-da-saude/. Acesso em: 24 jul. 2026.

BRASIL. MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL. Estatísticas de acidentes e afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais. Brasília, DF: MPS, 2025/2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/campus-ribeirao-preto/afastamento-do-trabalho-por-transtornos-mentais-cresce-68-no-brasil/. Acesso em: 24 jul. 2026.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (Brasil). Referências técnicas para atuação de psicólogas(os) na educação básica. 2. ed. Brasília: CFP, 2019.Disponível em https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2019/08/EducacaoBASICA_web.pdf . Acesso em 03 Ago. 2026.

DIAS, Ana Cristina Garcia; PATIAS, Naiana Dapieve; ABAID, Josiane Lieberknecht Wathier. Psicologia Escolar e possibilidades na atuação do psicólogo: Algumas reflexões. Revista Quadrimestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, São Paulo, v. 18, n. 1, p. 105-111, jan./abr. 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pee/a/kFwV6k4ThTqNSNpp6NYmPft/?lang=pt Acesso em 03 Ago. 2026.

#saúde mental na escola#professores#base nacional comum curricular

Tamanho do texto

Compartilhar

Link copiado!
Breno Souza

Breno Souza

ASSISTENTE E MOBILIZADOR EDUCACIONAL

Estudante de Pedagogia apaixonado por transformar realidades por meio da união entre educação, gestão ativa e inovação tecnológica. Um profissional inquieto, focado em metodologias modernas e em criar soluções pedagógicas que geram real impacto social.

Gostou deste conteúdo?

Receba por e-mail novos artigos sobre saúde mental e bem-estar, sempre que publicarmos.